Trofeu copa

Copa do Mundo de 2054

Em clima de Copa do Mundo, começamos a nos questionar quais são as presentes e futuras inovações dentro das 4 linhas, já que o futebol parece sempre estar atrás de esportes como tênis, basquete e futebol americano, em termos de adoção tecnológica. Ainda assim, não se pode negar que a evolução do esporte é nítida quando comparamos o futebol da época do Pelé com os dias atuais.

Além da mudança no design e material das roupas (de quentes camisetas de algodão para as atuais camisetas dri-fit) destacamos o principal elemento do jogo, a bola. Hoje em dia, cada filamento é pensado com base em estudos aerodinâmicos, além da inclusão de sensores internos para detecção de toques por jogadores e para tecnologia de linha de gol. Para os céticos, que duvidam que tudo isso faz alguma diferença, relembramos o impacto da Jabulani na copa de 2010. Estamos passando a implementar cada vez mais câmeras, dispositivos e, recentemente, até inteligência artificial no futebol. Aonde vamos chegar com tudo isso?

Rob Green, goleiro da Inglaterra, momentos antes de uma das falhas mais marcantes de sua carreira

Quem acompanha o esporte certamente se lembrará de algumas formas como a tecnologia já vem atuando no futebol:

O VAR (Video Assistant Referees), possivelmente o exemplo que mais está em pauta atualmente, possibilita que árbitros localizados em cabines específicas analisem e revertam lances da partida, de forma que alguma jogada duvidosa ou equivocada não tenham um impacto injusto no resultado do jogo. Mas e se substituíssemos os árbitros externos por uma Inteligência Artificial treinada especificamente para estas situações? Sim, uma espécie de FIFA (o jogo de videogame) em que todos os lances são identificados e marcados pelo computador. Será que conseguiríamos tirar todas as incertezas e injustiças do futebol? Bom, já podemos ver indícios da evolução do VAR na Copa do Mundo do Catar-2022, no qual será testado o “impedimento semiautomático” – tecnologia constituída por 12 câmeras posicionadas sob o teto do estádio, que irão monitorar cada jogador e, com o auxílio de uma IA, irão cruzar seus dados com os obtidos por um sensor inserido na bola, para verificar se o jogador está ou não em posição de impedimento;

VAR analisando movimento de jogador durante uma partida de futebol. Reprodução/FIFA

Outra tecnologia que também está sendo explorada é o uso de Wearables pelos jogadores. Com estes dispositivos, dados são coletados durante a partida e análises sobre o desempenho dos times e jogadores podem ser realizadas. Nada mais são do que sensores que conseguem registrar movimento, posição dentro de campo e até mesmo a contagem de chutes realizados por cada um dos pés do jogador. Em um futuro distante, poderíamos ter a recriação de um momento icônico do futebol: após a captura de dados pelos sensores, a AI poderia gerar uma lista de jogadas mais promissoras para o momento e fornecer instruções para os jogadores por meio de pontos eletrônicos (recriando o que a dupla Luxemburgo – Ricardinho fez algumas décadas atrás).

Hoje, diversos times já possuem equipes especializadas para analisar estes dados, gerando relatórios e calculando diversas probabilidades para as próximas partidas – um exemplo, é o Liverpool, que possuí uma equipe de ciência de dados que utiliza o Big Data para avaliar as possíveis jogadas e até mesmo as chances do time marcar um gol – com este tipo de análise, o técnico pode “arrumar” o time de uma forma mais eficiente e que irá trazer o melhor resultado para casa.

Áreas em vermelho correspondem as áreas que o Liverpool conseguiria chegar antes que seus adversários caso a bola fosse para tal direção. Reprodução/liverpool.com

Pensando além, será que um dia a Inteligência Artificial terá capacidade de prever faltas e jogadas antes mesmo que aconteçam? Talvez não seja algo distante, se observarmos o quão evoluído a tecnologia preditiva está, podemos imaginar esse avanço em breve. Com o auxílio de uma AI e um volume de dados que seja suficientemente grande, é possível identificar padrões e levantar probabilidades, prevendo então o comportamento subsequente do que está sendo analisado. E, por que não prever as ações de uma pessoa? É exatamente isso que o filme “Minority Report”, 2002, estrelado por Tom Cruise abordou. Neste caso, em 2054, a polícia previa crimes ainda não cometidos, e, com isso, conseguiam fazer com que a taxa de assassinatos caísse para zero (prendendo pessoas antes de cometerem os delitos). A pergunta que fica: até 2054 teremos uma tecnologia tão avançada como esta sendo testada na Copa? Façam suas apostas!
 

Cérebro Artificial

Um tema que está frequentemente em sites de tecnologia é a boa e velha comparação entre Cérebro e Inteligência Artificial. Sempre que vejo algo do tipo, me lembro de um gif do boneco de uma AI precisando de milhões de tentativas para dar um passo para frente. Acredite, no caso abaixo, a diretriz dos programadores não era ensinar break dance ao boneco.

Resultado de milhões de tentativas e erros de uma inteligência artificial que tinha como objetivo se locomover

Além de cômico, compará-lo ao poderoso cérebro humano parece simplesmente desproporcional, afinal um bebê em estágio inicial de desenvolvimento se sai bem melhor do que umas das AIs mais avançadas do Google. Mas temos que ser justos. Um programador estabelece incentivos à uma AI e através de tentativa e erro ocorre um processo de aprendizado. Ao mesmo tempo, a natureza “programa” os genes dos seres vivos para se tornarem os mais aptos aos seus ambientes, via seleção natural. Na verdade, o bebê supracitado já passou bilhões de anos de tentativas e erros desde o primeiro ser vivo até ser capaz de andar. De repente, a foto acima não é mais tão cômica assim, não é mesmo?

Exemplos desta programação intrínseca nos nossos genes podem ser verificados no nosso dia a dia. O que acontece quando escutamos um inesperado barulho alto, por exemplo? Olhamos na direção do ruído, sem nenhum tipo de processamento prévio, por mais desenvolvido que seja córtex pré-frontal do ser humano (parte do cérebro que suporta um funcionamento cognitivo mais avançado).

Ao mesmo tempo, nossos bilhões de anos de vantagem garantem ao cérebro um grande diferencial em relação às AIs. Nós temos senso comum, isto é, entendemos o contexto ao nosso redor. Inteligências artificiais enxergam correlações entre parâmetros, sem nenhuma compreensão. Acredito que as imagens abaixo sintetizam melhor do que qualquer explicação.

“Inteligência” artificial

Na imagem acima, vemos o que uma inteligência artificial identifica em cada foto, seguido do que pode ser interpretado como seu nível de certeza, sendo 1.0 = 100%

Mas e se nós pudéssemos ter o melhor dos dois mundos? A capacidade computacional de realizar cálculos complexos de uma Inteligência Artificial em conjunto com as vantagens evolutivas acumuladas no cérebro humano? Bom, alguns cientistas de Melbourne, do ramo de biologia sintética, já estão começando a conectar estes dois mundos antes distantes.

800 mil neurônios foram conectados à um circuito de eletrodos de silício. O objetivo? Ensinar os neurônios a jogar Pong (foto abaixo). Através de sistemas de feedback (reforço positivo) e envio de sinais elétricos, notou-se que, em 5 minutos, este “mini cérebro” já tinha aprendido as dinâmicas básicas do jogo.

Ilustração do jogo “Pong”

Além de não deixar a bola passar, os neurônios foram aprendendo a minimizar o consumo de energia. Um dos intuitos dos cientistas é utilizar o experimento para descobrirmos os efeitos que remédio e drogas podem ter sobre o nosso cérebro. Em um dos estudos, planejam embriagar este cérebro sintético e ver os efeitos sobre o seu desempenho em Pong. Destes projetos, podemos ter insights sobre doenças como epilepsia, demência, entre outras, atuam, e quem sabe mitigá-las.

Fugindo do pensamento científico, me pergunto se no futuro poderemos utilizar implantes cerebrais, como o proposto pela Neuralink para aprendermos instantaneamente sobre qualquer tema. Instalaríamos um software no implante, que treinaria nossos neurônios (de preferência enquanto dormimos), e pronto: seríamos capazes de falar outro idioma (similar ao filme Lucy), ou aprenderíamos a saltar com vara.

Ilustração de como o dispositivo da Neuralink funcionaria

Ou será que, com um entendimento maior sobre o funcionamento de drogas em nosso cérebro, seríamos capazes de desenvolver uma pílula que nos tornasse instantaneamente gênios (similar ao filme Limitless)?

Apesar dos pensamentos acimas provavelmente estarem errados por uma infinidade de motivos, estamos animados com os avanços da biologia sintética, e ansiosos por startups com soluções tão inovadoras quanto às visões supracitadas. Antes de encerrarmos esta edição, deixo como indicação o YouTube do Anton Petrov, que serviu de inspiração para o tema desta semana.

“Death is a problem that can be solved” – Peter Thiel